Novos rurais: Os electrotécnicos das ervas aromáticas

Os bits e megabits, os computadores e as novas tecnologias foram esquecidos e todas as energias e processamento de dados são agora canalizadas para as Ervas de Zoé, a empresa sedeada no Ladoeiro, na Quinta das Mentas, que mudou radicalmente a vida dos engenheiros electrotécnicos Henrique Manso e Rosário Martins.

Uma mudança muito ponderada, que deixou para trás toda uma vida estável em termos profissionais e pessoais, uma vida bem sucedida, com “uma excelente casa e hipótese de progressão na carreira”. Tudo ficou em Lisboa e nem todos os que os rodeiam perceberam esta troca do mais que certo, pelo inseguro.
Foi um risco que foi sustentado ao longo dos anos, muito pensado, discutido, mas realizado com uma forte certeza e enorme força de vontade. “Foi uma decisão que tomámos cedo, mas chegámos à conclusão que tinha que ser e que não íamos esperar pela reforma”, refere Rosário.
Ambos, de forma mais ou menos consciente, sentiam o apelo à terra, às suas origens. As famílias têm raízes em pequenas aldeias da região e o regresso amiúde foi aguçando o apetite do retorno às origens. “Não é uma decisão fácil, a todos os níveis. Uma pessoa tem estabilidade profissional, tem uma vida a rolar e decidir deixar um conjunto de coisas, não é fácil. Mas, quando há vontade, acaba por se sobrepor. E acreditar que o que se vai fazer vai resultar, tão bem ou melhor do que aquilo que se fazia, é um pormenor fundamental”, afirma Henrique.
A família de Rosário é de Lentiscais, anexa de Castelo Branco, e apesar de ter seguido um caminho diferente e optado pela grande cidade, sempre sentiu uma relação muito forte com a terra. “À medida que ia tendo uma vida cada vez mais citadina fui-me apercebendo e o Henrique acompanhou-me sempre nesse sentimento”, concretiza.
Começaram então à procura de um terreno e quase correm o país com esse objectivo. Não havia dúvidas que o concelho de Idanha-a-Nova era a opção certa e o Ladoeiro ganhou. “Aqui há muita água e excelentes condições para praticar agricultura, não estando muito longe dos Lentiscais nem da terra do Henrique, que é perto do Sabugal. Foi também uma coincidência encontrar este local com todas estas condições para fazer aromáticas”, explica, porque, desde início que a ideia era dedicarem-se às aromáticas. Não tanto pelas condimentares, mas sim pelo chá, de que ambos são fãs incontornáveis.
“Isto foi um gosto que sempre tive ao longo da vida e que nunca valorizei. Tinha a paixão pela electrónica e pelas novas tecnologias, que foi sempre mais importante, mas o outro esteve sempre presente e foi crescendo até se tomar esta decisão”, diz Rosário, sendo seguida por Henrique que reitera que “é uma paixão de há muitos anos, principalmente da Rosário, que já vinha adquirindo conhecimentos e por isso, quando aqui chegámos já sabia bem o que queria, apesar da sensibilidade para as aromáticas lhe ser inata”.
Quando deixaram tudo para trás, os filhos tinham um e três anos e esse foi o móbil que preponderou. “Foram um pouco eles que nos empurraram, tínhamos vontade mas nunca nos decidíamos e com estas idades achámos que estava no limite, para eles não criarem raízes e não têm a noção do que ficou para trás e do que existe hoje”, concretiza a mãe.
Já estão há três anos com as Ervas de Zoé. Pouco tempo para implementar um projecto destes que, para já, se estende quase ao hectare e meio de plantação de aromáticas, apesar de a quinta possuir cerca de oito.
Ao todo, são cerca de 50 plantas diferente que utilizam para condimento e para chás. E o tratamento da planta em si é diferente consoante a sua finalidade. “Para condimentar tiramos só as folhinhas, porque é desagradável apanhar paus, por exemplo, numa salada. Já para infusão trituramos em troços pequenos”, explica Henrique.
As Ervas de Zoé têm 12 referências condimentares e 21 para infusão, para além do conjunto de misturas que foi criada, para linhas específicas. Nomeadamente a da manhã (com três chás diferentes), o pós-refeição (com dois) e a noite (com dois). Já estão a trabalhar numa outra linha, dedicada ao bem-estar.
“Pedem-nos imensos chás para emagrecer… é uma loucura”, afirma Henrique, embora esta linha se estenda a infusões destinadas a problemas como a febre…ou outros sintomas que possam ser combatidos desta forma.
“A Rosário é a pessoa que tem mais feeling e inspira-se no que existe, na literatura e sobretudo nos franceses. Depois, vai experimentando e para além do efeito, procura que seja saboroso, porque uma infusão deve ser um momento de prazer e não um castigo”, ironiza Henrique.
As Ervas de Zoé são distribuídas, essencialmente, para lojas e o escoamento é feito pelo casal. “Nós fazemos tudo: produção, processamento das plantas, embalamento e depois procuramos os clientes”, acrescenta, destacando que vendem em lojas da especialidade e lojas gourmet. A Espanha ainda não chegaram, porque também ainda não houve essa preocupação. Este ano esperam atingir já um número de lojas razoável e reconhecem que ao fim destes três anos as coisas evoluíram bem.

Autor: Cristina Mota Saraiva/Lídia Barata

One thought on “Novos rurais: Os electrotécnicos das ervas aromáticas

  1. Muitos parabéns pela excelente iniciativa. Era bom que os jovens começassem a olhar para a agricultura com bons olhos. Este dois jovens são um bom exemplo disso, aliar qualidade de vida com produção de ervas aromáticas que os sustenda para o dia a dia.
    Muitas felicidades!
    Bem haja

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