Os infinitos olhares do turismo

Os infinitos olhares do turismo

Entre os mais de 800 milhões de turistas que percorrem o mundo não existem dois “olhares” iguais.

Vítor Neto

Não existe um “olhar” único do Turismo. Cada Turista “selecciona, entende e lê” o mundo exterior que contacta  com olhos próprios, só seus,   expressão da sua cultura, estatuto social, sexo, idade, e até saúde e estado de espírito do momento. Entre os mais de 800 milhões de turistas que percorrem o mundo não existem dois “olhares” iguais. Têm motivações, interesses e prioridades exclusivas. Todas diferentes.

Os Turistas de hoje pouco têm a ver  com os de há vinte, dez, ou mesmo cinco anos atrás, e continuam a mudar todos os dias. Os estudos sociológicos mais avançados confirmam-no. Não entender isto impede qualquer abordagem séria, leva a uma acção sem rumo, impossibilita a projecção de políticas de Turismo correctas.

Infelizmente, há quem continue a ver os Turistas como uma massa informe e indiferenciada, pouco inteligente, passiva e disponível para aceitar tudo o que “se acha” que lhes “deve” agradar. Não percebem que, assim, estão a fechar as portas do futuro.

O viajante não tem dúvidas de que vamos ter Turistas cada vez mais informados e mais cultos, mas com uma cultura nova, mais exigentes, mas a partir de padrões racionais ou instintivos próprios de cada um, turistas mais individualizados, todos diferentes mesmo actuando em “grupo”, e pouco dispostos a aceitar propostas que não respondam às expectativas que só eles conhecem.

É evidente que esta realidade, que se poderia chamar de “pós-turismo”, coloca desafios enormes à  “oferta” turística: a capacidade de responder, com  inteligência e imaginação, partindo dos recursos de cada lugar, a uma procura nova e ávida de emoções e experiências estimulantes. Para a oferta turística, a grande questão é, afinal, como responder a milhões de olhares novos e únicos, e em mutação permanente.

Tudo isto exigiria reflexão séria. Nada disto se discute em Portugal. Reduz-se cada vez mais a abordagem do Turismo a interesses imediatos, ontem uns hoje outros, ao que “está a dar”, desprezando totalmente qualquer visão de futuro e, na prática, os próprios turistas e o Turismo. O viajante não pode deixar de recordar aqui as palavras sábias do professor Ernâni Lopes quando lançou, há uns anos, o grito de alarme: “Turismo não é hotéis!”.  Queria ele dizer que Turismo não é apenas esta ou aquela parcela ou sector que o compõe e faz funcionar – hotéis sim, mas é também restaurantes, transportes, indústrias de lazer, 2ªs residências, ‘resorts’, marinas, golfes, casinos, etc.. Turismo é tudo isso em conjunto, funcionando de forma harmoniosa para um mesmo fim: tornar agradável uma estadia, curta ou longa, para alguém que, depois de se informar, nos procurou e escolheu entre mil hipóteses e que, por isso, decidiu viajar para vir ao nosso encontro. É este o mecanismo do Turismo. Quanto vale? Que devemos fazer para que esse Turista continue a preferir-nos?

É evidente que estas preocupações só interessam a quem acredita que o Turismo é para continuar, porque cria riqueza, gera emprego e constrói futuro, e não a actores ocasionais que depois de terem esgotado recursos e criado desertos, levantam a tenda e desaparecem. Os autóctones, esses, ficam.

Dois exemplos recentes para provar a força das alterações em curso. O primeiro é a compra pelo grande operador turístico mundial alemão Tui da britânica First Choice. Razão: precisam de racionalizar custos e rever procedimentos, porque estão a perder terreno face às actuações dos “novos turistas” que fogem aos pacotes e aos ‘charters’, privilegiam a internet e optam pe ‘las low cost’,  e constróem de forma personalizada itinerários, estadias e experiências de lazer. O segundo exemplo é a agitação que percorre grandes companhias aéreas de bandeira europeias em crise: a Ibéria e a Alitalia, candidatas a ser compradas pela British Airways e a Lufthansa, por companhias americanas ou até pela Aeroflot. Causa, a mesma: as alterações de comportamento dos viajantes, muitos deles turistas…a concorrência brutal das companhias ‘low cost’ e a alteração do papel da viagem nas sociedades modernas

Infinitos olhares que mudam. Que só os cegos não vêem.

Vítor Neto, Empresário, presidente do NERA e vice-presidente da AIP

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