Os meus livros

Os meus livros
são serradura de mim, esfregão de aço, lágrimas empalhadas, résteas de
côdea. O mundo não precisa de saber a verdade. Vive nos seus devaneios
materiais, das suas insígnias, das dores do alheio, da glória da
serpente….
Os livros que escrevo são páginas de fel, à espera da abelha. Não
pagam alugueres, nem frascos de perfume.
Os livros que eu escrevo são papéis de carnavais, pó de lixo, carne
seca, amores perfeitos em campos de joio.
Os livros que escrevo morrem comigo, não se espalham ao vento da
nortada, nem nas cristas das ondas.
Os livros que escrevo limpam janelas, assentam telefones, esvaziam
caixas de chocolates, enfeitam-se dos meus dedos.
Os livros que escrevo forram paredes de prisões, guardam humidades e
lembram as angústias de um mundo injusto.
Os livros que escrevo são as minhas medalhas, as minhas angústias, as
minhas incertezas.
Os livros que escrevo apenas servem para dizer que sou a 7525734 e que
nasci em Moçambique, num ventre bem-aventurado.
São as minhas lâmpadas que fundem mas guiam quando podem, os trilhos
já pisados de uma alma em desencanto.
Esses são os livros que escrevo.

Leonor de Saint Maurice

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