Duas Faces da Vida

Com várias moedas se vive a vida. Uma delas, a maior e, para muitos, a mais importante, ostenta duas efígies que, como é da tradição, são o reverso uma da outra. Numa face, vejo o rosto de um velho bondoso, calmo, de sorriso fraterno, boné desportivo a tapar a careca ampla; na outra, está um senhor de óculos de aros grossos, nariz afilado, olhar frio, sorriso cruel, cabelo penteado cuidadosamente, rosto fechado e assustador. Ao primeiro, com ar de avô tranquilo, confiaria as crianças todas do mundo; ao segundo, nem o meu cão lhe entregaria. Ao primeiro, meu companheiro de piscina, desportista desde pequenino, ouvi dizer, com a experiência dos seus noventa e dois anos, que não precisa de mais dinheiro do que aquele que lhe coube na magra reforma; ao outro, gestor bancário, ouvi dizer que gosta de desafios e das pessoas. O primeiro diz que, quando recebe, já tem tudo planeado e sabe onde gastar cada cêntimo. Habituou-se a viver de acordo com as suas posses e aprendeu que não pode ir além disso. O segundo, ama o dinheiro pelo dinheiro, embora diga que, acima de tudo, estima as pessoas. Congemina projectos que lançam milhares de famílias no desemprego e a sua ambição não conhece limites nem sentimentos, a não ser o da ganância, o do prazer do lucro, o do gosto de vencer quem se lhe oponha.

Estas duas faces da vida andam nas ruas connosco, uns, de olhos brilhantes de uma alegria verdadeira, aprenderam a pôr a fasquia dos sonhos à altura das suas posses e gozam a tranquilidade de um precioso equilíbrio interior; os outros, alucinados, sempre colocando a fasquia das suas ambições cada vez mais alta, derrubando obstáculos, destroçando quem os enfrenta, esgazeados e de cara fechada, roídos de angústias e de medos, receosos do momento em que um adversário mais forte apareça e lhes dite o fim. Uns, irradiam felicidade e gosto de viver; os outros espalham a angústia e o desamor… e afirmam gostar das pessoas.

Estas são apenas duas faces de uma das moedas com que lidamos, mas que decide o nosso sentido da vida: uma, a da paixão do dinheiro é a mãe de todas as discórdias e guerras, angústias e desordem; a outra, a mãe da solidariedade, da autêntica liberdade, da paz, da alegria de saborear a simplicidade de acordar todos os dias sem dores existenciais, as piores de suportar.

Alguém dirá:« – Não é tempo de poetas! O dinheiro é a mola do progresso!»

E eu a interrogar: «- Mas que progresso?» E sorrio, simplesmente…

Por Leonel Marcelino

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