A procura do banal na selva urbana

É nos centros comerciais que as pessoas, hoje em dia, se vão encontrar consigo próprias e se perdem. Nesse espaço, derivam e flutuam como corpos sem astros, presentes mas ausentes, num mundo etéreo abissal.

As exposições que, de tempos a tempos, surgem ornamentando os espaços, são contempladas benevolamente, como mais um adorno que se confunde na miscelânea de cores, luzes, cheiros e sons que envolvem os seres humanos. E as pessoas olham, mas não vêem.

São demasiadas as sensações visuais, incongruências para uns, coerência para outros, num espaço onde o tudo e o nada fazem sentido. A música das lojas e dos espaços comuns, supostamente, criam vida, mas impalpável. E os cheiros de pipocas nos cinemas, todo o tipo e variedade de comida na zona da alimentação, os perfumes sem cor provenientes não se sabe bem de onde, ofuscam as flores, mais artificiais que naturais, esmagadas pela opressão do sem-sabor geral.

Não há pressa nos passeios que se dão entre as lojas, sendo forçoso mostrar que se está bem, na moda, com roupas e adereços, muitos e condizentes. O cabeleireiro e a manicure têm sempre clientela. A necessidade de parecer bem aos outros também se veste, ou disfarça, dentro de cada um.

O centro comercial foi, de facto, uma grande invenção que demonstra a evolução humana. Um lugar onde todas as classes sociais se juntam, onde todos são iguais, ou talvez, mais uma vez, uns mais iguais que outros.

Encontrou-se o espaço perfeito onde a temperatura ambiente é sempre agradável, onde existe a segurança que na selva urbana escasseia, onde se pode conversar, estudar e trabalhar, onde se satisfazem as necessidades básicas numa panóplia de ofertas, e não se trata apenas de comer e beber, mas também, e, sobretudo, comprar, necessidade primária hoje em dia.

Há tanta sede de liquidar o quotidiano e nem sempre se sabe como. O séc. XXI oferece-nos, de bandeja, a anti-cultura, o consumismo atroz que se transmite às crianças que passam pela mão, ao colo, de carrinho, ou ainda na barriga das mães. As crianças aprendem, assim, a serem felizes. Ou conhecem a falsa felicidade.

Porque, afinal, bastará muito pouco para se ser feliz. Em que será que se pensa enquanto se atravessa, sem destino, de uma ponta à outra, o espaço atroz? Que não é preciso o sol, o ar, ainda que não tão puro quanto isso, mas viciado pelo monstro da poluição que cresce e cresce e cresce? Será apenas necessário o centro comercial (ou comércio central…)? Não são precisas as brincadeiras, as quedas de bicicleta, as roupas sujas de terra? Serão somente necessárias as PSP, as play stations, o computador? E tudo se faz para que as crianças cresçam saudáveis física e emocionalmente.

E, no final do dia, após o passeio sem rumo, chega-se a casa com o sentido de dever cumprido. Liga-se a televisão… e tornamo-nos mais uma “audiência da solidão”.

Ana Márcia Pires * Professora

Região Sul

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